O Polo Norte magnético da Terra está se afastando cada vez mais do ponto em que foi detectado pela primeira vez, em 1831.
Desde que apareceu no Ártico canadense, o polo vem mudando de posição de forma contínua e, nas últimas décadas, passou a se deslocar em direção à Sibéria. Entre 1999 e 2019, esse movimento ultrapassou 1.100 quilômetros, segundo um estudo publicado na Nature Geoscience.
Essa alteração não interessa apenas à comunidade científica. Aviões, navios, submarinos, sistemas militares, aplicativos de mapas, smartphones e plataformas de GPS dependem de dados precisos sobre o campo magnético terrestre para operar corretamente.
Por isso, no fim de 2024, autoridades dos Estados Unidos e do Reino Unido apresentaram uma nova versão do principal modelo usado para acompanhar essas mudanças. O World Magnetic Model 2025 ficará em vigor até 2029 e traz medições mais detalhadas do campo magnético da Terra, de acordo com a Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos EUA e o Serviço Geológico Britânico.
O que está empurrando o Polo Norte magnético?
Ao contrário do Polo Norte geográfico, que permanece fixo, o polo magnético muda de lugar porque sofre influência dos movimentos do núcleo externo do planeta.
A milhares de quilômetros abaixo da superfície, ferro e níquel em estado líquido circulam continuamente. Esse fluxo gera correntes elétricas que formam o campo magnético terrestre.
Nas últimas décadas, os cientistas notaram um comportamento fora do padrão. O polo, que por séculos se moveu lentamente pela região do Canadá, acelerou sua trajetória em direção à Sibéria.
“O comportamento atual do Polo Norte magnético é algo que nunca observamos antes”, afirmou William Brown, responsável por modelar o campo geomagnético global no British Geological Survey.
Segundo ele, em nota do BGS, a velocidade do deslocamento chegou a cerca de 50 quilômetros por ano e depois caiu recentemente para algo próximo de 35 quilômetros anuais.
A disputa invisível entre Canadá e Sibéria
Uma das explicações mais aceitas para esse fenômeno foi apresentada em um estudo publicado na revista Nature Geoscience.
A pesquisa aponta que a posição do Polo Norte magnético é influenciada por duas grandes áreas de fluxo magnético localizadas na fronteira entre o núcleo e o manto da Terra: uma sob o Canadá e outra sob a Sibéria.
Ao analisar dados de satélites da Agência Espacial Europeia, os pesquisadores concluíram que a estrutura magnética canadense perdeu força ao longo das últimas décadas, enquanto a região siberiana ganhou influência relativa.
O resultado foi uma espécie de cabo de guerra magnético nas profundezas do planeta, que acabou puxando o polo gradualmente para o território russo.
O geofísico Ciarán Beggan, do British Geological Survey, resumiu o processo ao Washington Post. Para ele, o campo magnético está enfraquecendo sobre o Canadá e se fortalecendo na Sibéria, o que “puxa o polo magnético em direção à Sibéria”.
Por que isso importa para a tecnologia e a navegação?
Embora a mudança pareça pequena em escala global, seus efeitos podem se acumular ao longo de grandes distâncias. É por isso que cientistas dos Estados Unidos e do Reino Unido atualizam a cada cinco anos o World Magnetic Model, usado como referência por sistemas de navegação civil e militar.
De acordo com a NOAA, esse modelo é adotado por órgãos como a Administração Federal de Aviação dos Estados Unidos, o Departamento de Defesa norte-americano e a Otan.
Empresas de tecnologia também usam essas informações para manter a precisão de bússolas digitais, aplicativos de navegação e serviços de localização.
“Quanto mais tempo se espera para atualizar o modelo, maior se torna o erro”, disse Arnaud Chulliat, pesquisador da Universidade do Colorado e do Centro Nacional de Informações Ambientais da NOAA, em entrevista à CNN.
O que muda com o novo modelo magnético?
A versão mais recente do World Magnetic Model foi lançada em dezembro de 2024 e trouxe uma novidade inédita: um mapa magnético em alta resolução.
Segundo a NOAA, a atualização permite cálculos mais precisos sobre a posição do campo magnético terrestre e melhora a orientação de equipamentos que dependem dessas informações.
O novo modelo também revisou as chamadas zonas de blackout magnético, áreas próximas aos polos em que o campo magnético pode ficar inadequado para determinadas operações de navegação.
O movimento continua
Apesar dos avanços nas medições, os cientistas ainda não conseguem definir com exatidão qual será a próxima etapa do Polo Norte magnético. A expectativa, porém, é que ele siga em direção à Sibéria nos próximos anos.
“Nossas previsões indicam que o polo continuará se deslocando em direção à Sibéria, mas prever o futuro é um desafio e não podemos ter certeza”, afirmou o geofísico Phil Livermore, da Universidade de Leeds, ao portal Live Science.