Células-tronco restauram insulina em pacientes com diabetes tipo 1

Medicina e Saúde

Em um avanço que pode mudar o tratamento do diabetes tipo 1, células-tronco derivadas de embriões conseguiram, pela primeira vez, restaurar a produção de insulina em pacientes com a doença, segundo ensaios clínicos recentes.

No estudo conduzido pela Vertex Pharmaceuticals, 12 pessoas receberam um transplante de células beta, responsáveis por produzir insulina, cultivadas em laboratório. Em apenas seis meses, 10 delas, o equivalente a 83%, deixaram de aplicar insulina.

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Um resultado ainda mais marcante foi registrado na China. Pesquisadores pegaram células de gordura do próprio paciente com diabetes tipo 1, reprogramaram esse material em células-tronco pluripotentes induzidas, conhecidas como iPSCs, e depois as converteram em células beta. Essas células foram transplantadas sob o músculo abdominal do homem.

Setenta e cinco dias depois da cirurgia, ele já não precisava mais de insulina. O benefício permaneceu por pelo menos 12 meses.

O que são células-tronco

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O corpo humano adulto é formado por cerca de 30 trilhões de células, todas originadas de aproximadamente 100 células-tronco presentes nos primeiros dias do desenvolvimento embrionário. Elas recebem o nome de pluripotentes porque têm capacidade de se transformar em praticamente qualquer tipo de célula do organismo.

A pesquisa com células-tronco embrionárias humanas começou em 1998, quando embriões doados por casais em tratamento de fertilização in vitro passaram a fornecer uma fonte praticamente ilimitada desse material. Muitas dessas linhagens seguem em uso até hoje.

Em 2007, dois grupos de pesquisa, um liderado por Shinya Yamanaka, no Japão, e outro por James Thomson, nos Estados Unidos, descobriram como devolver células maduras, como as da pele, ao estado pluripotente. Assim nasceram as iPSCs.

A principal vantagem dessa técnica é que essas células carregam o DNA do próprio paciente, o que abre espaço para terapias personalizadas e reduz o risco de rejeição.

Como isso funciona no diabetes tipo 1

No diabetes tipo 1, o sistema imunológico ataca e destrói as células beta do pâncreas, que são as responsáveis pela produção de insulina. Sem elas, o paciente passa a depender de aplicações diárias para controlar a glicose no sangue e evitar complicações graves, como danos aos vasos sanguíneos, nervos, rins e olhos.

Mesmo assim, a insulina aplicada não substitui totalmente o trabalho natural das células beta, que ajustam a liberação do hormônio de forma contínua e precisa. Por isso, muitos pacientes continuam enfrentando problemas de saúde ao longo da vida.

Os estudos mais recentes mostraram que células beta produzidas a partir de células-tronco podem sobreviver após o transplante, amadurecer e funcionar normalmente, retomando a produção de insulina.

O desafio, porém, continua sendo a resposta do organismo. Células cultivadas em laboratório têm genética diferente da do paciente e acabam sendo tratadas pelo sistema imunológico como invasoras. As iPSCs parecem uma saída mais promissora por carregarem o DNA do próprio indivíduo, mas ainda existe risco de comportamento imprevisível depois de meses de reprogramação.

Além disso, no diabetes tipo 1, a mesma reação autoimune que destruiu as células beta originais pode voltar a atacar as células transplantadas. Hoje, para evitar rejeição, os pacientes costumam receber medicamentos imunossupressores, mas esses remédios podem causar efeitos colaterais importantes e, em muitos casos, acabam trazendo mais prejuízos do que benefícios.

Por isso, cientistas têm buscado alternativas, como cápsulas protetoras para isolar as células ou alterações genéticas que permitam que elas “se escondam” do sistema imunológico.

A promessa das células editadas geneticamente ficou mais clara em um estudo publicado no ano passado. Nele, pesquisadores transplantaram células modificadas em um paciente com diabetes tipo 1 sem usar imunossupressores. O organismo não reagiu contra as células, que sobreviveram, produziram insulina e ajudaram no controle da glicose por 12 semanas.

O que vem pela frente

Segundo o artigo, as células-tronco oferecem um conjunto extraordinário de possibilidades para a ciência e para a medicina. A capacidade de transformar essas células pluripotentes em tecidos especializados está avançando rapidamente, e os primeiros resultados clínicos bem-sucedidos já deixaram de ser apenas teoria.

Ainda assim, essas terapias seguem em fase experimental e não receberam aprovação de órgãos reguladores como a Health Canada ou a FDA, nos Estados Unidos. Por isso, pacientes devem ter cautela com tratamentos não autorizados e buscar orientação médica antes de considerar qualquer participação em ensaios clínicos.

Mesmo com todas as limitações atuais, o progresso observado até aqui alimenta uma expectativa concreta de que, no futuro, terapias com células-tronco possam mudar a vida de milhões de pessoas que convivem com doenças crônicas como o diabetes tipo 1.

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