Golpe de clonagem de voz com IA apavora vítimas nos EUA

Liz Benz ainda não tem dúvidas de que quem telefonou em desespero era mesmo seu filho. O timbre, o ritmo e a forma de falar pareciam exatamente os de Fred, adolescente de 16 anos.

Mas a ligação era falsa: tratava-se de um clone de voz criado por inteligência artificial, mais uma vítima de um golpe moderno de falsidade ideológica que vem preocupando autoridades e entidades de defesa do consumidor nos Estados Unidos.

Benz, corretora de seguros de 46 anos e mãe de seis filhos, levou um susto ao atender uma chamada de um número desconhecido em sua casa, em Buffalo, no norte do estado de Nova York. Do outro lado, a voz parecia ser a de Fred, chorando e pedindo socorro.

Segundo o relato, ela ouviu que um amigo do garoto havia sido baleado e morto, e que o filho, que tinha saído para uma partida de futebol local, teria sido feito refém. Em seguida, os golpistas exigiram que ela levasse dinheiro em espécie a um supermercado próximo para pagar o suposto sequestrador.

A farsa só começou a desmoronar quando Benz recebeu uma selfie de Fred sorrindo durante o jogo. Foi então que ela percebeu que estava diante de uma tentativa de golpe.

“Nada teria me convencido de que era um golpe até eu ver com meus próprios olhos”, contou Benz à AFP. “Foram 20 minutos de pânico”.

Como a IA está ampliando os golpes de clonagem de voz

Em abril, o FBI informou que os americanos perderam mais de 893 milhões de dólares, o equivalente a R$ 4,48 bilhões, no ano passado em fraudes viabilizadas por inteligência artificial.

Uma busca simples na internet já revela uma grande oferta de aplicativos de clonagem de voz, muitos deles gratuitos, capazes de reproduzir vozes de forma bastante convincente a partir de pequenos trechos de áudio reais.

“Antes isso era algo difícil de fazer. Agora qualquer um consegue em segundos”, afirmou Brian Long, diretor executivo da Adaptive Security, empresa que treina pessoas para se protegerem de golpes com IA.

Para Long, uma única pessoa com um computador e um teclado pode criar uma quantidade praticamente ilimitada de fraudadores virtuais. Ele explica que essas ferramentas conseguem montar mensagens usando áudios encontrados em redes sociais ou em caixas postais de voz.

O caso de Benz segue um roteiro que tem se repetido: uma ligação de um suposto parente em apuros, preso, envolvido em acidente ou acusado de algum crime, pedindo dinheiro com urgência.

Depois disso, os golpistas costumam introduzir outras vozes, como a de um falso advogado ou de um suposto funcionário de banco, para tornar a conversa ainda mais confusa e pressionar a vítima a agir rápido.

Tecnologia de clonagem de voz e a urgência criada pelos golpistas

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Nem sempre é necessário um clone perfeito para enganar alguém.

“Basta uma voz aflita dizendo ‘Mãe, me ajuda’ ou ‘Pai, sofri um acidente’ para soar plausível por alguns segundos”, explicou Amit Gupta, executivo da empresa de cibersegurança Pindrop, à AFP.

Segundo ele, o objetivo não é produzir uma cópia impecável da voz, mas gerar dúvida e sensação de urgência suficientes para que a pessoa tome uma decisão sem checar os fatos.

Depois que tornou sua experiência pública, Benz disse ter recebido muitas mensagens de outras vítimas. Em vários casos, elas preferem não revelar o próprio nome por vergonha.

Os idosos estão entre os grupos mais vulneráveis a esse tipo de fraude com clonagem de voz. O FBI informou que americanos com mais de 60 anos relataram perdas de mais de 7,7 bilhões de dólares no ano passado, um salto expressivo em relação a 2024.

“Eles são profissionais, e, quando conseguem fazer as pessoas atenderem o telefone, estão lidando com amadores”, afirmou o advogado da Filadélfia Gary Schildhorn.

Em 2023, Schildhorn prestou depoimento no Senado dos Estados Unidos sobre uma ligação em que uma voz imitando a de seu filho Brett dizia que ele havia sido preso por dirigir embriagado e precisava pagar fiança.

A chamada o levou a correr para o banco. Mas, quando chegou lá, o telefone tocou novamente: era o próprio filho avisando que ele havia caído em um golpe.

“Quando chego, meu telefone toca. É meu filho. Ele me diz: ‘Você foi vítima de um golpe’”, relatou o advogado à AFP. “E eu respondo: ‘Brett, vou para o túmulo jurando que era a sua voz’”.

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