Tom Clancy costumava dizer que a diferença entre ficção e realidade é que a ficção precisa fazer sentido. E é justamente essa sensação de absurdo que acompanha o Lenovo G02, um console portátil voltado à emulação que, como tantos outros do gênero, vem recheado de ROMs (jogos) piratas de sistemas clássicos.
No início, muita gente tratou o caso como uma brincadeira bem montada. Mas a história ficou ainda mais estranha quando a própria Lenovo confirmou que o aparelho existe de verdade e que ele é “exclusivo” do mercado interno chinês — embora esteja facilmente acessível para compra no AliExpress.
Lenovo, emulação, Games, China e o detalhe que ninguém esperava
O G02 pode gerar uma dor de cabeça enorme para a Lenovo (Crédito: Divulgação/Lenovo)
A confusão começou no começo de maio, quando diversos veículos perceberam um novo portátil sendo vendido no AliExpress. O aparelho tinha o visual típico de um retroconsole chinês, com formato inspirado no Game Boy, como tantos modelos de marcas como Anbernic, Ayaneo, Retroid e outras.
O que chamou atenção foi ver o nome Lenovo associado ao G02, algo que parecia não fazer o menor sentido. Mesmo sendo uma empresa chinesa, a Lenovo é uma gigante global de tecnologia, avaliada em US$ 195,37 bilhões, o equivalente a cerca de R$ 983,06 bilhões na cotação de 22/05/2026.
A companhia também controla a Motorola, segue forte no mercado mobile e é uma das maiores forças do setor de PCs, especialmente em notebooks, graças ao legado da linha ThinkPad, além de atuar com PCs portáteis para jogos. Por isso, vê-la envolvida com emulação — um tema delicado quando há ROMs ilegais no meio — parecia improvável demais, especialmente para uma marca desse porte. Em outras palavras, soava ilógico.
Diante da estranheza, o site Retro Dodo fez o que qualquer redação deveria fazer: entrou em contato direto com a Lenovo para descobrir se o G02 era real ou apenas mais um golpe de terceiros usando o nome da empresa para parecer confiável e vender mais.
A resposta da Lenovo, porém, deixou tudo ainda mais curioso.
Segundo a empresa, o G02 é um dispositivo criado por meio de um acordo local de licenciamento, pensado exclusivamente para o mercado chinês e fora do portfólio global da Lenovo. A companhia também afirmou que produtos desenvolvidos nesse tipo de parceria podem ser diferentes daqueles vendidos pelos canais oficiais.
Em resumo, o Lenovo G02 é um produto licenciado e oficial, ainda que não tenha sido desenvolvido internamente pela marca. Na prática, trata-se de um portátil autorizado a usar o nome Lenovo, o que indica uma tentativa da empresa de entrar em uma fatia lucrativa do mercado de retrogaming dentro da China, onde companhias locais já vêm faturando alto.
O que o Lenovo G02 oferece
Falando do hardware, o G02 é voltado para jogos antigos, indo no máximo até a quinta geração, com suporte a títulos de PSOne e Nintendo 64. Ele também roda Dreamcast, embora com limitações, além de portáteis como PSP e Game Boy Advance. A lista ainda inclui jogos de arcade, Neo Geo e até alguns games antigos de PC.
Por dentro, o portátil usa um processador Rockchip RK3326, um quad-core com clock de até 1,5 GHz, acompanhado de 1 GB de RAM e 4 GB de armazenamento interno destinados ao sistema operacional Linux.
A interface é a versão desktop do EmulationStation, que é gratuita, embora o nome tenha sido removido mesmo assim.
A tela é, talvez, o ponto mais interessante do aparelho. Em vez de um LCD comum, como costuma acontecer na maioria dos concorrentes, o Lenovo G02 traz um painel IPS de 4,5 polegadas com resolução de 1.024 x 768 pixels e proporção 4:3, ideal para jogos clássicos.
A alimentação ocorre via USB-C, com duas portas no total, sendo uma delas com suporte a OTG. Os controles incluem um analógico com iluminação RGB, o que o deixa bem próximo do Anbernic RG 40XXV em proposta e aparência.
O portátil pode ser comprado com cartões microSD de 64 GB ou 128 GB já carregados com ROMs, mas aceita expansão de até 1 TB. Com preço em torno de US$ 63, algo próximo de R$ 630 via Remessa Conforme, o G02 fica um pouco acima do baratinho R36S, embora este último tenha dois analógicos.
Porque a Lenovo entrou nessa?
A grande dúvida é justamente essa: por que a Lenovo aceitaria se expor dessa forma?
Mesmo com a justificativa de que o produto é voltado apenas ao mercado chinês, é difícil imaginar que a empresa não tenha previsto que o G02 acabaria aparecendo no AliExpress e, com isso, ficaria ao alcance de consumidores do mundo todo.
Esse tipo de movimento pode acabar chamando atenção de empresas afetadas pela distribuição de ROMs piratas. E, nesse cenário, a Nintendo dificilmente deixaria passar batido.
A diferença é que marcas como Anbernic e outras atuam basicamente na China e vendem para fora por meio de lojas de e-commerce. A Lenovo, por outro lado, é uma multinacional de peso, presente em vários países, o que a transforma em um alvo muito maior e mais relevante para uma eventual reação da casa do Mario.
Ainda é possível que essa história tenha novos desdobramentos nos próximos meses. Enquanto isso, o G02 segue à venda e pode ser adquirido com poucos cliques por quem ficou curioso e quer entender de perto essa estranha jogada da Lenovo.